
Meu blog se chama Pontes em Movimento porque é exatamente assim que eu me sinto desde os 16 anos. Uma ponte que liga mundos, pessoas, idiomas, rotinas, projetos. Uma ponte que atravessa fronteiras com a mala pronta e o coração tentando acompanhar o ritmo. Do lado de fora, parece sempre bonito. E é bonito, sim. Mas existe uma parte que quase ninguém conta. Ou conta com filtro. Ou romantiza.
A parte em que você se despede de quem ama com o peito apertado e vai mesmo assim.
A parte em que você aprende a sorrir no aeroporto e a engolir o choro no carro, porque ainda tem reunião, ainda tem entrega, ainda tem responsabilidade.
A parte em que você vira presença por mensagem, por chamada de vídeo, por áudio no meio da madrugada. Você participa do que pode, como pode, do jeito que dá. Mas há momentos em que não dá. E é aí que mora a dor que não aparece no feed.
Quem vive entre alguns mundos carrega um tipo específico de perda: a perda do “estar”. Estar de verdade. Estar inteiro. Estar sem fuso horário no meio.
Eu perdi muitos momentos únicos ao lado das pessoas que eu mais amo. Amigos de verdade, daqueles escolhidos a dedo, que a vida inteira você quer por perto. Família. Gente que fez parte de mim quando eu ainda estava me tornando quem eu sou. E eu não digo “perdi” como drama. Eu digo como verdade. Porque quando você escolhe viver em movimento, você escolhe também tudo aquilo que não vai conseguir segurar com as duas mãos.
No ano passado, eu vivi uma das dores mais duras da minha vida. Depois de um acidente terrível, minha irmã foi atacada por dois rottweilers ao tentar separar uma briga. Ela ficou quatro meses internada na UTI e morreu em maio do ano passado.
Eu pude estar com ela nesse período apenas uma vez.
Foi intenso. Foi único. Foi um daqueles momentos que ficam gravados em algum lugar que nem o tempo alcança. Eu vou levar comigo para sempre.
Mas a vida não é feita só do que a gente consegue viver. Ela também é feita do que a gente não consegue.
Eu não consegui estar lá nos outros dias. Eu não consegui estar lá nas horas em que o corpo cansa e a alma pede colo. Eu não consegui estar no cotidiano daquela espera. Eu não consegui estar em tudo.
E isso dói de um jeito que não tem frase pronta. Dói porque a ausência não é falta de amor. É distância mesmo. É vida escolhida. É estrutura construída. É o preço silencioso de quem vive longe.
E não é só na dor.
Quando um amigo querido vive uma vitória linda. Quando alguém que você ama atravessa um período difícil. Quando nascem crianças. Quando tem batizado, formatura, casamento, Natal, bodas. Quando a vida celebra a própria vida.
Muitas vezes, a Naty está ausente. E está longe.
Eu sei o que isso provoca nos outros e sei o que isso provoca em mim. Porque mesmo quando eu estou realizada, mesmo quando eu amo o que faço, existe um lugar dentro de mim que sente falta do simples: estar sentada à mesa. Estar no sofá. Estar no abraço demorado. Estar no “passa aqui rapidinho”. Estar no “vem pra cá hoje”.
No dia 03 eu celebro 15 anos de casamento com o meu alemão lindo. Eu casei com meu melhor amigo. E sim, eu tenho orgulho da história que construímos. Eu sei o valor de atravessar anos, países, fases, projetos, mudanças, e continuar escolhendo um ao outro.
E onde eu estarei?
No mundo, a trabalho.
Feliz e realizada? Com toda a certeza.
Mas longe. E ausente.
Esse é o tipo de verdade que quase ninguém gosta de dizer em voz alta porque estraga o conto. Só que não é conto. É vida. E vida adulta é feita de escolhas conscientes, não de positividade barata.
Eu não quero romantizar nem reclamar. Eu quero só reconhecer.
Porque reconhecer também é uma forma de amor.
Eu sei exatamente o que me faz feliz. Eu sei o tamanho da minha vocação. Eu sei o quanto eu gosto de construir, de liderar, de empreender, de ser ponte. Eu sei o quanto eu me sinto viva quando estou no fluxo daquilo que eu acredito.
Mas eu também sei que toda escolha real vem acompanhada de renúncias reais.
E talvez esse seja um dos aprendizados mais maduros de quem vive em movimento: você para de se enganar. Você para de fingir que dá para ter tudo ao mesmo tempo, o tempo todo. Você aprende a sustentar o peso das suas escolhas sem terceirizar a responsabilidade delas.
E você segue. Às vezes com saudade. Às vezes com culpa. Às vezes com gratidão. Muitas vezes com tudo junto.
Porque perdas e ganhos não se alternam com organização. Eles coexistem.
Eu ganhei o mundo. E eu perdi presença.
Eu ganhei caminhos. E eu perdi alguns rituais.
Eu ganhei expansão. E eu perdi instantes.
Eu ganhei uma vida que me representa. E eu aprendi a conviver com as consequências dela.
Compartilho minha jornada e meus pensamentos com muito carinho com todos vocês. Espero, de verdade, que isso te inspire a seguir com coragem, consistência e coração na direção dos seus objetivos, mesmo quando o caminho exigir escolhas difíceis.
Obrigada por estar aqui comigo.
Até a semana que vem.